Missionário adventista fala dos desafios na Jordânia

Os muçulmanos veem os cristãos como “adoradores de imagens” e “comedores de carne de porco.” Por essa razão, quando perguntam se somos cristãos, respondemos primeiramente que não.

Em fevereiro deste ano, 25 famílias foram enviadas como missionárias para países onde o cristianismo tem pouca ou nenhuma influência. Elas fazem parte do projeto Missionários para o Mundo da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Na Jordânia, está a maior família enviada composta por cinco membros. Por desfrutarem da liberdade de expressão do país, o pastor Paulo Rabello concedeu uma entrevista à Agência Adventista Sul-Americana de Notícias (ASN) e compartilhou experiências e curiosidades do cotidiano de um missionário.

ASN – Há quanto tempo você e sua família estão na Jordânia e quais as primeiras impressões de servir nessa região?

Paulo Rabello – No dia 23 de fevereiro deste ano chegamos a Beirute, Líbano. Nos hospedamos em uma universidade adventista chamada Middle East University (MEU) onde, por 30 dias, recebemos orientações e aulas sobre a cultura, religião e a língua do Oriente Médio. Após o treinamento, viemos para a Jordânia. Chegamos já no final do inverno, início da primavera. Ainda pegamos um pouco de frio, mas aos poucos fomos nos “climatizando”. A cultura árabe-muçulmana é bem diferente da  brasileira. Ainda hoje, passados seis meses, temos de nos “policiar” para não cometer algumas gafes ou mesmo ofender os nativos com os nossos costumes ocidentais. Por aqui, a religião permeia o cotidiano das pessoas. Desde as roupas até os cumprimentos, tudo reflete as crenças locais do Islamismo.  E isso se torna um tremendo desafio para nós que vivíamos em um país de cultura religiosa misturada.

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ASN – Qual seu trabalho e quais as maiores dificuldades e facilidades?

Paulo Rabello – Atuo como pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia localizada em Amã, capital da Jordânia.  Essa igreja atende a dois grupos distintos: (1) a comunidade adventista árabe, formada por jordanianos na sua maioria e (2) a comunidade adventista internacional (pessoas de diferentes países que vivem e trabalham na Jordânia).  As diferenças começam na língua e afetam praticamente tudo entre eles (tipo de música, vestimentas, visão missionária, estilo de vida, etc.).

Acredito que uma facilidade que encontramos por aqui é a abertura para falar sobre assuntos espirituais com qualquer pessoa. Como a religião permeia praticamente toda a vida dos árabes, sempre que possível fazemos  perguntas e tiramos dúvidas com eles. Com isso, abrimos as portas para uma possível amizade e um diálogo sobre assuntos espirituais.

ASN – O que mais lhe chama a atenção nessa cultura? 

Paulo Rabello – A cultura árabe, diferente da nossa, não trabalha com os conceitos de certo e errado, mas com honra e vergonha. Todas as ações (comportamento, vestimentas, palavras, relacionamentos)  são  realizadas com base na reflexão: isso trará vergonha ou honra para a família em questão?  O resultado  é uma sociedade preocupada com as aparências. Por exemplo, ao sermos convidados  para uma refeição na casa de uma família – o que é um grande privilégio e uma honra para nós – percebemos que os esforços não são puramente para nos agradar como visitas. Existe uma preocupação, ainda que velada, sobre o que iremos falar para os outros árabes sobre aquela família e o seu acolhimento.

ASN – E quanto aos costumes e comida? Estão se adaptando bem?

Paulo Rabello – Uma coisa bem diferente em relação aos costumes dos árabes, em comparação com o Brasil, são os horários.  Os árabes são muito noturnos.  Eu arriscaria afirmar que, em sua totalidade, eles dormem muito tarde. Como consequência disso, as refeições são servidas em horários bastante diferentes dos brasileiros. O horário de almoço varia de família para família, sendo servido a partir das 14 até 17 horas.  O jantar é servido bem tarde da noite, a partir das 22 horas.  Também é bastante comum você receber telefonemas e visitas de amigos e parentes até a meia-noite. Uma boa parte do comércio, especialmente no verão, funciona até 21 horas ou até mesmo 22 horas. E tudo o que envolve as atividades dos árabes, envolve comida. A comida é pesada e carregada de temperos e iguarias locais.  Eles consomem muita carne, comem muito pão (em todas as refeições tem que ter) e pouca salada.  O chá preto e o café são os motores propulsores de todos na nação.  A adaptação, portanto, depende muito da pessoa e da capacidade individual de cada um em suportar esse novo e desconhecido mundo e suas peculiaridades.  Particularmente falando, eu até gosto da comida árabe, mas ainda assim prefiro o “nosso arroz com feijão de cada dia” – que ainda é uma unanimidade aqui em casa.

ASN – Qual a visão do povo sobre o mundo ocidental e do cristianismo?

Paulo Rabello – Lamentavelmente a visão não é das melhores. Os muçulmanos veem os cristãos como “adoradores de imagens” e “comedores de carne de porco.” Por essa razão, quando perguntam se somos cristãos, respondemos primeiramente que não.  Dizemos que somos adventistas do sétimo Dia apenas.  Logicamente que eles perguntam em seguida: mas o que significa isso?  Aberta a porta, apresentamos os pontos comuns que temos com os muçulmanos: acreditamos em um único Deus, em Seus profetas, não comemos carne de porco, não bebemos, não fumamos, acreditamos nas Escrituras, que Jesus voltará, etc. E, uma vez que ganhamos a simpatia deles e eles baixam a guarda, partilhamos mais da nossa fé (quando possível). Eles se surpreendem ao saber que existem cristãos que são diferentes do estereótipo preconcebido por eles mesmos. Em todas as oportunidades que tivemos de partilhar nossa fé com nossos novos amigos, a reação deles sempre foi de muito apreço e respeito. A visão sobre o mundo ocidental é um pouco mesclada. Há uma espécie de rancor, como se o Ocidente fosse, de certa forma, culpado pelas mazelas locais. Mesmo assim, uma boa parcela do mundo árabe (especialmente os mais jovens) querem conhecer o Ocidente. Muitos nos questionam, querendo saber por que deixamos um país como o Brasil e viemos para o Oriente Médio, um lugar que, segundo eles, não tem esperança de um futuro melhor. [Equipe ASN, Felipe Lemos]

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